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Em um Brasil polarizado, por que o cérebro reage com alerta diante de quem pensa diferente? Por Luanda Rosa Pesquisa aponta que 78% dos brasileiros percebem o país dividido; neuropsicóloga explica como identidade, medo e redes sociais podem transformar uma divergência política em hostilidade, e por que desconforto não precisa virar intolerância. Em um segundo turno marcado por divisões políticas, conversas sobre eleições podem se transformar rapidamente em conflito, na família, no trabalho e nas redes sociais. Para 78% dos brasileiros, o país vive em polarização política, com a sociedade dividida em grupos de visões opostas, segundo pesquisa Datafolha divulgada em outubro de 2026. O cenário ajuda a explicar por que o encontro com quem pensa diferente pode despertar reações intensas antes mesmo de uma análise mais cuidadosa. Na Neuropsicologia, essa resposta envolve mecanismos de detecção de novidade, incerteza e possível ameaça. Mas ela não determina, por si só, intolerância. “O cérebro pode sinalizar que algo é novo ou imprevisível. O problema começa quando essa reação inicial é tratada como verdade definitiva sobre o outro”, afirma a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa.
Quando a opinião vira identidade A polarização não se limita a discordâncias sobre propostas. Em muitos casos, a posição política passa a fazer parte da identidade da pessoa, misturando-se a valores, vínculos familiares, crenças e pertencimento a grupos. Por isso, criticar um candidato pode ser vivido como um ataque à própria história ou ao grupo com o qual a pessoa se identifica. A divergência deixa de ser sobre ideias e passa a ser interpretada como uma ameaça pessoal. “Quando o voto se torna parte de quem eu sou, discordar de mim pode parecer desrespeitar minha existência. Nesse ponto, a conversa política deixa de ser troca de ideias e passa a ativar defesa”, explica Luanda.
Por que o diferente ativa alerta A amígdala participa da avaliação rápida de estímulos emocionalmente relevantes, incluindo rostos, expressões e sinais sociais. Estudos de neuroimagem associam a ansiedade social a maior reatividade dessa região diante de estímulos sociais percebidos como ameaçadores. No contexto político, a incerteza não está apenas nas ideias diferentes, mas também na possibilidade de rejeição, conflito ou rompimento de vínculos. Em um ambiente de alta polarização, essa incerteza pode ser lida como risco. A divisão, porém, é sobretudo afetiva. Pesquisas sobre polarização no Brasil indicam que ela envolve identificação com um grupo e hostilidade em relação ao outro. Segundo levantamento Ipsos-Ipec citado pela Ipsos, 72% dos brasileiros se sentem incomodados com a radicalização e a polarização política.
Redes amplificam o “nós contra eles” As redes sociais podem intensificar essa dinâmica ao dar mais alcance a conteúdos que provocam engajamento rápido, como indignação, medo e raiva. Uma análise de mais de 20 mil conversas digitais no primeiro trimestre de 2026 identificou que o debate eleitoral foi movido menos por propostas e mais por desconfiança e ceticismo. Quando a pessoa recebe repetidamente informações alinhadas às próprias crenças, o adversário pode deixar de ser alguém com outra opinião e passar a representar uma ameaça moral. Essa simplificação reduz o espaço para o diálogo e aumenta as respostas automáticas. “Antes de responder, vale perguntar: estou reagindo ao que a pessoa disse ou à imagem que construí sobre o grupo ao qual ela pertence?”, questiona Luanda.
Desconforto não é intolerância Sentir desconforto diante de quem pensa diferente não significa, por si só, ser intolerante. A diferença está na forma como a pessoa interpreta e age diante dessa reação. É possível sentir apreensão em uma conversa política e, ainda assim, manter curiosidade, respeito e abertura para ouvir. O oposto ocorre quando o desconforto é convertido em rótulo, ataque ou exclusão. “O desconforto é uma informação, não uma sentença. A pergunta útil não é apenas ‘por que estou reagindo assim?’, mas também ‘quais evidências eu tenho sobre essa situação?’”, diz Luanda.
Como sustentar uma conversa difícil Algumas estratégias podem ajudar a reduzir a escalada do conflito:
Nomear a reação: “estou me sentindo alerta porque o assunto é importante para mim”. Diferenciar sensação de fato: sentir raiva não comprova que a outra pessoa tem má intenção. Evitar responder a partir da imagem que se faz de um grupo inteiro. Fazer perguntas para entender, e não apenas para rebater. Reconhecer quando a conversa deixou de ser produtiva e pausá-la. Procurar apoio psicológico quando o medo, a raiva ou a ansiedade passarem a afetar relações e bem-estar.
“Não se trata de eliminar toda reação de alerta. O objetivo é ampliar a capacidade de olhar para além dela e lembrar que quem pensa diferente não deixa de ser pessoa”, conclui Luanda.
Sobre a Luanda Rosa Psicóloga e neuropsicóloga (CRP 06/106954), especialista em autismo na adolescência e na vida adulta. Atua há 15 anos com avaliação neuropsicológica de adultos, é coautora do livro Protagonismo Feminino e consultora em inclusão de pessoas autistas para empresas. Também participa de podcasts, palestras e eventos sobre autismo na vida adulta e neurodiversidade.
Cesar
Jumana
Cesar Jumana
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