Você mandaria seu filho para a escola hoje?  

Governadores  e prefeitos de anunciarem o retorno as aulas no mês de agosto, e a discussão que tomou conta da mídia, não pude deixar de lembrar a resposta dada a um jornalista pelo Prefeito Aguilar Junior, em coletiva que promoveu na última segunda-feira, ao apresentar um balanço de sua administração no enfrentamento à pandemia.

Após explicar que a reabertura das atividades econômicas foi discutida por um comitê, formado por representantes da sociedade civil organizada, saúde e governo, que determinou os critérios e providências sanitárias que foram adotadas, informou sobre a formação de outro comitê com a participação de pais, mestres e saúde que irão determinar a volta às aulas. Mesmo destacando a importância do compartilhamento de responsabilidades, perguntou ao jornalista: “Você mandaria seu filho hoje a escola? Eu não mandaria” disse.

Em minha opinião eu também não mandaria. Claro, não tenho mais filhos em idade escolar, mas com certeza preferiria que meu filho perdesse um ano em sua vida do que perdesse a vida. Acredito que aulas poderão ser repostas, a vida não.

Pesquisando na Internet, encontrei um texto com dados muito pertinentes de Airton Goes, do Programa Cidades Sustentáveis, publicado há quatro meses no site “cidades sustentáveis”, que repasso para reflexão. Atenção, esse texto tem quatro meses!

“Caso as aulas retornem, você mandaria seu filho para a escola?” Essa pergunta simples e direta, feita por uma participante da página “Foco no Jardim Miriam” no Facebook, despertou o interesse de integrantes do grupo e deu a oportunidade para familiares de alunos opinarem sobre o tema, que tem centralizado conversas e debates nas últimas semanas no Brasil.

Isso, porque o presidente da República, Jair Bolsonaro, tem criticado o fechamento das escolas e outras políticas de isolamento social que foram adotadas como forma de reduzir o contágio do novo coronavírus. A medida havia sido tomada por governadores e prefeitos, com base em orientações da Organização Mundial da Saúde e de especialistas da área médica.

Postada no dia 25 de março, a pergunta recebeu em apenas três dias mais de 500 comentários, número considerado elevado para aquele espaço virtual, que recebe postagens relacionadas ao cotidiano dos moradores do Jardim Miriam. O bairro integra o Distrito da Cidade Ademar, na periferia da zona sul de São Paulo, e possui mais de 100 mil habitantes. Cerca de 20% das moradias da região estão localizadas em favelas.

Inspirada pela pergunta, que acabou virando uma enquete, a reportagem do Programa Cidades Sustentáveis contabilizou as opiniões e selecionou algumas respostas dadas pelas pessoas que interagiram com a página. 

A maioria das mensagens (87,5%) respondeu “não”. Ou seja, a pessoa não mandaria a criança ou adolescente para a escola nesse momento, mesmo que ela fosse reaberta. 

 “Prefiro o meu [filho] ser reprovado de ano, do que ver ele sofrendo e eu não poder fazer nada”, afirmou um pai. “Saúde em primeiro lugar”, disse uma mãe. “Minhas filhas e minha neta só voltam quando eu tiver certeza que tudo isso acabou”, escreveu outra.

Cerca de 7,4% das pessoas que comentaram a postagem não responderam a pergunta ou não deixaram claro suas opiniões.

 “Vocês acham que a escola vai voltar? Se liga pessoal, esse povo não gosta de trabalhar”, provocou um dos internautas desse grupo.

Por outro lado, apenas 5,1% afirmaram que “sim”, mandariam a criança ou adolescente para a escola nesse momento, se ela fosse reaberta.

 “Sim, tenho fé em Deus. Sei que é uma fase difícil, mas eu mandaria sim”, respondeu uma mulher. “Engraçado que para a escola não querem mandar, mas você olha para as ruas e o que mais tem é criança brincando. Então, não muda nada...”, justificou um homem. “Sim... com H1N1 por aí, ele teve que ir... com a febre amarela... sarampo também. E olha que essas mataram mais gente que o Covid [19]”, considerou outro.

A tese defendida pelo presidente Bolsonaro, de que apenas idosos e pessoas com doenças crônicas estariam no chamado grupo de risco e deveriam ficar em isolamento social, tem poucos adeptos no grupo. 

 “Claro que sim. Primeiro, as crianças não são do grupo de risco. Segundo, precisam estudar. Terceiro, isto ajudaria os pais que trabalham a não deixarem os filhos com pessoas do grupo de risco por falta de opção...”, defendeu uma delas.

Embora a enquete tenha sido realizada com um grupo restrito de pessoas (532 até a data do levantamento feito pela reportagem) e em apenas um bairro da periferia de São Paulo, os dados ajudam a entender e a estimular a reflexão dos pais e familiares de alunos sobre o fechamento das escolas em vigor nas cidades brasileiras.

Como essas pessoas estão entendendo e se posicionando em relação à divergência existente entre a posição defendida pelo presidente, de um lado, e a maioria dos governadores e prefeitos, de outro?

E você, mandaria seu filho para a escola hoje? 

Cesar Jumana

 

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